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DAMMIT Entrevista: Gloria Groove, uma das drags do momento

Dona de uma voz poderosa e de uma personalidade cativante, a cantora fala sobre fama, preconceito, cultura drag e seu álbum de estreia.


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  • Publicado em 23 de agosto de 2017

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Mesmo nova, aos 22 anos, Gloria Groove já revoluciona o mercado musical. Dona de uma voz poderosa e de uma personalidade cativante, ela faz a própria maquiagem, escreve as próprias músicas, conta com bons números nas redes sociais e, diferentemente de outras drag queens, canta de verdade. O melhor de tudo? A cantora conseguiu ganhar espaço no rap nacional, gênero musical conhecido por ser predominantemente machista e masculino.

Nascida na Vila Formosa, zona leste de São Paulo, Gloria Groove veio ao mundo como Daniel Garcia, mas foi como drag queen que ela entrou no mercado fonográfico ao lançar no primeiro semestre de 2017 o disco O Proceder, que conta com oito faixas. Do projeto, já lançou três singles: DonaImpério e Gloriosa, que somam juntos mais de oito milhões de views no YouTube. Poderosa!

Embora esteja sob os holofotes agora como cantora, Gloria Groove já era conhecida pelo grande público por conta de sua participação no Amor & Sexo em 2016. E, esse mundo artístico também não lhe é estranho. Como Daniel, fez comerciais da Elma Chips, fez parte de uma das formações do Balão Mágico, do cast do programa de jovens talentos do Programa do Raul Gil e ainda atuou como ator na novela Bicho do Mato (Record). Mas, foi somente ao atuar no musical Hair que seu mundo finalmente ganhou sentido. “Nessa época, eu já havia me assumido gay para a família, mas sentia que algo me faltava, sabe? Foi só com a peça que percebi que poderia ser e me vestir como quisesse. A Gloria nasceu aí!”, conta.

Leia o bate-papo completo: 

DAMMIT: Acho que há dois lados dessa luta. A música feita por pessoas LGBTs está mais aberta ao grande público, mas o preconceito ainda existe. Pabllo Vittar estava no Encontro (Globo) recentemente, e isso é um grande avanço, mas, há alguns dias, Boquetáxi foi deletado do YouTube, e houve toda aquela polêmica de que isso aconteceu porque a Lia é uma drag – afinal, muitos funks com letras mais explícitas não saíram do ar. Ou seja, dá a impressão que muita coisa ainda precisa mudar, né? Pra você, o que anda faltando?
GLORIA GROOVEEu acompanhei esse caso do Boquetáxi, aliás, me revoltei no meu stories do Instagram! Ficou na cara que foi por preconceito, sabe? É sempre bom lembrar que não é porque estamos conquistando espaço na mídia que será o fim da descriminalização e do preconceito. O Brasil ainda é o país que mais mata LGBT. Acontece que muita gente está fechando os olhos, se acostumando e tendo a falsa impressão de que o preconceito está acabando. Pra mim, dizer que as pessoas estão mais abertas é a mesma coisa que dizer que o racismo não existe mais. O Brasil ainda é resistente, ainda é conservador, ainda torce o nariz pra LGBT fazendo arte e ainda acredita nessa história de “família tradicional brasileira”. Ou seja, é preciso entender que não é só uma questão de respeitar a gente, é preciso apoiar também. Se todo mundo se entender, podemos transformar o mundo e fazer dele um lugar melhor.

Com o sucesso de RuPaul, e de artistas como você, Pabllo Vittar, Aretuza Love e Lia Clark, você acha que estamos passando por uma fase de valorização da cultura drag, por assim dizer, ou é muito cedo pra dizer isso?
Definitivamente, a aceitação passou a ser muito maior. Percebo que as pessoas querem saber e estão muito mais interessadas em entender o assunto. Isso acontece porque a cultura drag ultrapassou a barreira da cultura pop – atualmente, a cultura drag passou a ser a cultura pop. Apesar disso, não existe a intensão de inserir a gente no mercado, sabe? Muito pelo contrário, o mercado quer moldar a gente pra vender a cultura drag do jeito que eles querem. Na real, eu não sinto que as pessoas entendam realmente o que é ser gay e ser drag no Brasil, país que mais mata pessoas só porque elas amam alguém do mesmo sexo. As pessoas ainda tem muita preguiça de entender e refletir sobre isso.

Você já pensou em voltar a se apresentar desmontada? Porque você começou a se montar há pouco tempo, por assim dizer… ou hoje, a Glória faz parte de quem você é artisticamente?
Hoje, posso garantir com 100% de certeza que a Gloria Groove não é um personagem ou uma persona. A Gloria é 100% o que o Daniel é, o conjunto do que ele viveu, todas as suas experiências, o que ele gosta, o que odeia, o que ele acha feio, bonito, interessante, vibrante. Quando aceitei isso, atingi um novo nível de arte. Porque comecei cantando desmontada, e, quando passei a me montar, descobri a estrela que havia em mim. A Gloria me ajudou a me descobrir, a entender o que é importante e relevante e me deu a possibilidade de me sentir bem comigo mesmo, de ser quem sou. Então, viverei a Gloria intensamente, tirando o máximo de ensinamento dela, e quem sabe daqui uns 20, 30 anos, eu já não sinta mais a necessidade de me montar.

SEI QUE VOCÊS ESTÃO ME DANDO MORAL, MAS NÃO ESTOU CEGA. É preciso RESISTÊNCIA pra encarar todo esse preconceito. Não é legal ser gay num país assim. Ser gay não é moda. Os brasileiros são adeptos a cultura do rótulo, do “eu acho”, de ir nas redes sociais expor sua opinião sem nem ao menos ter estudado sobre o assunto. 

Depois que a cena musical ficou mais aberta para os artistas LGBT, o preconceito com você, especificamente, diminuiu?
Quando você se torna uma figura pública, há mais espaço para você ser atingida. Porque as pessoas sabem onde te encontrar – quanto mais você dá a cara a tapa, mais disponível e visível você fica. A aceitação comigo é bem maior agora, mas o preconceito não. Em contra partida, tenho muito mais apoio e sou mais levada a sério. É preciso entender que, quando me desmonto no final do dia, ainda sou um cara gay, que escuta “viado” na rua.

E esse lance do artigo? É ele, é ela… 
Fico muito feliz quando me perguntam se quero ser chamada de “ele” ou “ela”. As pessoas estão perdendo o medo de perguntar e aprender e isso é ótimo! No cotidiano, sou Daniel, um homem gay, então entre as bichas eu acabo sendo tratado no feminino. Na real, não ligo pra isso de gênero, sabe? Embora, quando estou de drag, prefiro ser tratada no feminino.

Você é uma artista do rap/hip hop, que é um gênero musical bem preconceituoso e machista. A gente imagina que foi difícil entrar nessa cena musical, mas, agora, continua sendo difícil? Essa cena ainda é machista?
O mercado do rap/hip hop é o que mais incita o machismo e a misoginia. Assim como acontece no funk, as letras instigam o corpo feminino, colocando ele como um objeto. Fora as letras que enaltecem o preconceito, né? Então, quando um gay se dispõe a entrar nessa cultura e usa o gênero como ferramenta contra todas essas coisas, é muito difícil, e ainda mais difícil por eu ser drag. Minha música tenta resinificar o rap/hip hop, porque falo sobre a realidade dos LGBTs, das drags, e isso não é aceito e compreendido por todo mundo. Mas, vejo que tem melhorado, sabe? Ainda vai demorar para eu chegar no patamar do Rico [Dalasam], por exemplo, mas esse é um processo que evolui aos poucos.

Nesse novo cenário da música brasileira, vejo você na linha de frente, ao lado de outros artistas LGBTs, lutando para conseguirem espaço. Isso te assusta? Saber que o seu trabalho é tão importante para que outros artistas surjam, e que você é um espelho para tantas pessoas?
Não me assusta, mas me intimida bastante. A partir do momento que você se torna uma pessoa pública, as pessoas ficam contando com a sua coragem, a sua mensagem, o seu apoio. Nós somos a mão de obra dessas pessoas, entende? Ou seja, temos que trabalhar por nós e por eles. Eu penso nisso o tempo todo. Quando encontro meus fãs, eles me contam várias histórias, suas dificuldades, suas angústias, e essa troca de experiências é muito importante pra mim. Fico muito feliz de viver numa época que tem uma cena musical assim, e ainda mais feliz por saber que o nome que criei faz parte de algo tão importante. Estou fazendo história e isso é maravilhoso.

Quando comecei a fazer rap/hip hop, sabia que precisava de uma validação, mas isso não quer dizer que eu não poderia CHEGAR SEM PEDIR LICENÇA. E foi isso que eu fiz. É ASSIM QUE EU REINVENTO O GÊNERO. 

Há um pouco mais de um ano, seu single de estreia anunciava “sou a dona da porra toda”. Agora, já com seu disco de estreia… o que mudou desde então?
Sou outra pessoa e vejo tudo de outro jeito. Atualmente, vivo e respiro para fazer e trazer algo de relevante para o mundo. Antes de Dona, eu precisava fazer algo para ser incrível e para deixar minha marca no mundo. Hoje, sei que criei uma plataforma para ajudar as pessoas a se expressarem. Quanto mais as coisas vão acontecendo, mais fãs eu encontro, e mais me transformo. É um lindo ciclo.

Suas letras falam muito sobre empoderamento, representatividade… você acha que letras assim são fundamentais pro seu trabalho, do que se você cantasse de qualquer outro assunto, por exemplo?
O Proceder é o meu ponto de partida, então é fundamental para mim falar de todas essas coisas agora. No futuro, posso até falar de outras coisas, mas, hoje, gosto de saber que o meu começo foi sobre militância, sobre os problemas que enfrentamos, sobre preconceito, sobre a realidade. Até tive algumas crises por conta disso. No começo, eu queria meter o dedo na cara das pessoas e falar a realidade do LGBT no Brasil. Mas, não podia fazer isso. Então, tenho muito orgulho de ter surgido falando do que realmente importa.

E, por falar no O Proceder, como foi o processo de produção do disco? Como foi pra você toda essa experiência de composição, produção, estúdio…
A sensação de estar fazendo algo totalmente meu foi incrível. Eu já tinha trabalhado em estúdio antes – cantando ou dublando -, mas nunca tinha feito algo que fosse só meu. Isso transformou minha vida e me tirou da minha zona de conforto, sabe? A melhor parte pra mim foi a composição. Isso de tirar algo do zero, de inventar algo que ainda não existia, foi incrível. Foi um teste e tanto da minha capacidade de criação, já que de todo o disco, só uma faixa não é minha [Madrugada foi escrita por Edu Camargo e Junior Meirelles].

Agora você está trabalhando Gloriosa nas rádios, né? Qual seu próximo passo?
O Proceder ainda não acabou. Eu queria trabalhar mais dois singles, mas ao menos um é certeza. Em breve, vamos começar a pensar no clipe e na divulgação de Moleque Brasileiro, que é algo que o público vem esperando faz tempo. É a faixa mais radiofônica e pop do disco, então estamos apostando bastante nela. Fora isso, vamos soltar um vídeo ensinando a coreografia de Gloriosa, já que no YouTube batemos um milhão.

E você já pensa num novo álbum? 
Sim! No começo de 2018 acho que teremos ele pronto. Já estou trabalhando nele, e posso adiantar que vai ser bem diferente de Proceder. Como estou na estrada agora, estou coletando muitas coisas do mundo e dos meus fãs, então, esse projeto refletirá muito isso, e não só minhas experiências. Ou seja, acredito que será um trabalho que não dará pra comparar com o atual – eu não sou a mesma letrista que eu era quando escrevi Dona.

Pra finalizar, qual é a sua música favorita do disco? Por quê?
Socorro, é a mesma coisa que perguntar qual é o meu filho favorito! [Risos]. Mas… sei qual é o meu! [Risos] É Dona. Essa música mudou minha vida. Quando escrevi ela, queria me expressar e dizer ao mundo como descobri a Gloria Groove. E lembro muito bem, Dona veio de uma vez só. Estava em Votuporanga quase dormindo, quando Dona chegou inteira na minha cabeça. Foi incrível.

“Eu queria deixar uma mensagem…
Agora, nos shows, os palcos estão sendo invadidos, os fãs querem me agarrar… essa é a melhor parte de toda a trajetória. Ver vocês, conversar com vocês. É nesse momento que tomo um soco da realidade – eu criei isso pra vocês! Então, pra quem está lendo, obrigada por me dar moral e possibilitar tudo isso que estou vivendo. O apoio de vocês é fundamental, porque é ele quem determina até que ponto a minha arte é relevante.”

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