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DAMMIT Entrevista: Conheça Manaia, cantora que é a nova aposta do pop rock nacional

Conversamos com a cantora sobre carreira, saúde mental e, é claro, sobre seu álbum de estreia, “Na Borda”. Confira!


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  • Publicado em 26 de fevereiro de 2019

Se você está em busca de conhecer novos artistas brasileiros, o DAMMIT irá te indicar uma artista incrivelmente talentosa, afinada e afiada! A cantora e compositora Manaia é um nome que está despontando no cenário musical, tendo sido lançada oficialmente para o mercado em setembro do ano passado. Sua capacidade vocal e essência expostas nos singles Baby e MEDO despertaram os olhares do público e da mídia. Recentemente, Manaia disponibilizou o seu álbum de estreia intitulado Na Borda, o qual reflete sua personalidade e traz uma forte e marcante pegada pop rock. Tivemos a oportunidade de conversar com a artista sobre seu novo projeto, carreira, saúde mental e muito mais! Confira:

DAMMIT: Como começou a sua relação com a música?

Manaia: Minha relação com a música começou aos seis anos de idade, quando comecei a tocar piano. A minha irmã tinha 12 anos e era para ela aprender a tocar, mas ela fugia da aula e depois quem ia brincar nele era eu. Os meus pais viram e perceberam tipo “minha filha arrasa nisso, vamos deixar ela fazer aula” e, então, eu comecei. Com 14 anos, escrevi minha primeira música, era sobre meu cachorro que tinha morrido. Sempre fiz aula de canto, piano, teoria musical e sempre tive esse amor pela música.

Eu queria ser música desde criança, só que numa sociedade meio fechada assim, ter essa carreira não é bem vista. O pai e a mãe querem que você seja advogado, médico, engenheiro, e não músico. Então, o primeiro impasse que tive foi familiar, hoje isso já não existe, agora, eles estão comigo, mas demorou bastante. Só com 25 anos que meu pai aceitou que eu queria fazer música. Mas essa ligação com a música veio desde criança, sempre gostei, sempre curti escutar, é um dos grandes hobbies da minha vida.

Inclusive, quando tinha 12 anos de idade, eu nunca fiz nada de errado na minha vida, nunca roubei uma bala quando criança. Mas já roubei, não foi um roubo, falo para a minha mãe que peguei um CD dela emprestado, nele tinha uma música que eu queria escutar que era daquele filme Grandes Esperanças do Mike Newell, um filme de adulto. Assisti ele com os meus pais no cinema e acabei me apaixonando pela trilha sonora e só queria escutar o CD. É engraçado, a única coisa que eu roubei na minha vida foi um CD da minha mãe (risos) para escutar a música no meu discman. Desde sempre a música é muito forte na minha vida, sempre gostei, e hoje é muito mais, estou vivendo a música como trabalho.

D: Você estudou nos Estados Unidos e chegou a estar entre os quatro finalistas do concurso American Idol Tour. Como foi essa experiência?

M: Na época, eu estava trabalhando no ambiente corporativo e tivemos férias do emprego, então fomos para a Disney. Estava acontecendo as audições por lá e todo mundo me falou para tentar, que o “não” eu já tinha, e eu fui, quando vi já estava participando, fazendo o meu show e adorando ele. No final, não ganhei, mas de qualquer forma me ajudou a sair com outra cabeça, pensando “caraca, é isso! Cansei de ficar atrás do computador, quero fazer música!”. Hoje, eu vivo atrás do computador, mas pela música, não porque alguém me mandou ficar.

D: A sua personalidade é bem conceitual, alternativa. Como você construiu ela?

M: A minha personalidade é muito louca mesmo! Eu falo que vem desde ser eclética, de gostar de rock, de alternativo, de indie, de pop, de sertanejo, de tudo. Desde o estilo de roupa que eu gosto também, que é tudo mais alternativo, as coisas que eu gosto de assistir, como O Senhor dos Anéis, essas coisas bem fantasia. Vou dizer que não sei de onde vem tudo isso, mas é uma mistura interessante,  que resultou na pessoa que sou. Não tenho muito preconceito com música, não tenho problema de escutar outros tipos de música, e é isso que dá esse tom diferente, de alternativo, então eu gosto de todos, e está tudo certo!

D: E como você encara isso diante do mercado musical brasileiro, o qual atualmente tem diferentes gêneros em alta?

M: Na realidade, de vez em quando, você leva um tapa na cara. A galera diz assim “acho que você é alternativa demais, rock demais, indie demais”, eu acho legal, de uma certa rotulam como indie e eu sempre gostei de indie, então para mim é um elogio. Mas o mercado hoje está com o ouvido mais pop, então às vezes a gente fica um pouco chateada, porque precisa se adaptar ao mercado, porém também não pode perder a identidade, fica naquilo de “vou ou não vou? Faço ou não faço?”. Esse álbum inicial Na Borda é exatamente isso, essa sou eu, eu com 24 anos, quando comecei a escrever essas músicas. Hoje, já com 30, estou com outra cabeça, por isso o próximo álbum já vai vir com uma pegada diferente, especialmente porque as músicas que a gente escutava há cinco são diferentes das músicas que escutamos hoje. O mundo está sempre girando e a gente tem que girar ele também.

D: Nota-se em suas músicas que você é uma mulher de atitude e de muita personalidade. Como você percebe essa relação do feminismo com a cultura pop, principalmente na música?

M: Eu acho que é importante a liberdade da mulher, a mulher pode colocar um fio dental, pode ficar pelada num videoclipe e não ser vista como objeto sexual, e isso para mim é simplesmente liberdade. Por que um homem pode ficar peladão e a gente não pode? Acho que as mulheres querem falar “eu também gosto disso, eu também quero aquilo, não sou seu objeto de compra, não tem essa parada de dote, eu tenho voto, eu tenho voz”, e isso é tão importante para as mulheres. No mercado atual isso já está bem colocado, bem visto, mas a gente ainda encontra dificuldade com os homens, que eles consigam aprender a lidar com isso. Eu falo que eles estavam mal acostumados ao amor e agora estão aprendendo de verdade. É tão bonito o que as mulheres estão fazendo atualmente, acredito que a gente tem que se unir mesmo. Fico p* da vida quando alguém chega e me fala assim “você não acha que mulher não faz rock tão bem quanto os homens?”, eu falo “desde quando a mulher não pode fazer rock?”, todo mundo é ser humano, todo mundo sangra vermelho, todo mundo é igual. Não vejo problema na sociedade do meu ponto de vista, eu sendo eu, mas vejo os homens com um pouquinho de medo. Porém, o mundo da música tem que ser livre mesmo, tem que fazer o quiser, se quiser ficar pelado, você fica; se quiser colocar roupa, bote; se quiser colocar casaco, tirar sapato, isso não é problema meu, é problema de cada um, cada um tem o seu negócio.

D: Na Borda, seu álbum de estreia, foi lançado recentemente e de forma independente. Como foi a produção do disco, a composição e seleção das músicas?

M: O álbum Na Borda fala sobre todos os sentimento à flor da pele. Com 24 anos, eu estava descobrindo o Borderline, então você tem a música Na Borda que mostra exatamente essa fase do descobrimento. A Laranja é sobre quando a pessoa que está muito apaixonada, está muito cansada e está no limite da depressão. Tem Loch Ness que tem essa coisa do estresse. MEDO é sobre você ficar com tanto medo de conseguir o amor que acaba se prendendo, ou é 8 ou 80, ou você vai ou não vai. As músicas desse primeiro álbum são exatamente isso, quem sou eu. Prazer eu sou Manaia, eu sou assim, sou à flor da pele, tenho emoções, porém também sou cobra, sou venenosa, tem tudo isso. Cada música tem um tema importante para mostrar que cada uma faz parte de mim.

D: O desenvolvimento do Na Borda começou aos seus 24 anos. Por que essa demora para divulgar o álbum?

M: Eu não conhecia as pessoas certas, fui conhecendo com o tempo. Escrevi com 24 anos, mas o mundo da música é complicado, é muito mais de quem te indica do que o trabalho que você pode fazer. É um mercado complicado mesmo, fiquei dando mil voltas até consegui entrar em uma linha, conheci algumas pessoas que me indicaram e assim foi. Mas no final deu tudo certo, conheci o Diego Timbó e foi com a Produtora Uno que comecei a ir para frente.

D: As suas canções são muito pessoais, expressam bem os seus sentimentos. Como é o processo de composição delas?

M: É bom porque para mim vem rapidinho, quando resolvo sentar para escrever, só sai. Quando tem alguma coisa me comendo por dentro, alguma ansiedade, simplesmente sai. Faço uma música em no máximo de duas horas, uma música completa com batida, efeito e tudo. Posso fazer às vezes em cinco minutos a letra, ela só vem. Esse é o meu dom com a composição. Acredito que sou tão à flor da pele, é muita coisa, é muito sentimento, que às vezes pesa e quando escrevo já sai pronto. Tenho várias músicas escritas, mas talvez tenha também mais de mil poemas, que não são nem músicas, às vezes são apenas duas, três frases e às vezes são páginas. Vou escrevendo e só vai saindo mesmo, gosto muito de escrever, sempre gostei de poesia, eu era a única pessoa que lia os livros da biblioteca da escola e lia os livros de poesia. Então, talvez seja algo que venha do passado.

D: Qual é a sua faixa favorita do álbum?

M: Laranja é para o próximo, MEDO é para o próximo, Cobra também. Então, a minha favorita é Baby porque é uma música que escrevi para mim, sou eu falando comigo mesma. Todo mundo acha que é uma música de amor, que é para alguém, mas não. Estou conversando comigo mesma, estou falando com o espelho, com a minha alma e é por isso que gosto tanto dessa música. E foi Baby que me fez largar tudo, foi exatamente aí que resolvi largar do meu trabalho para viver música. É a liberdade.

D: Se você conseguir, defina o álbum em uma palavra.

M: Se eu tivesse que definir em uma palavra, acho que definiria como louco, loucura, porque é exatamente essa coisa do Borderline, à flor da pele. Quando você começa entender a sua própria loucura e se aceitar.

Há alguns anos, Manaia foi diagnosticada com a síndrome de Borderline, um transtorno que leva a pessoa a altos e baixos emocionais e desenvolver uma forte depressão. Foi através da música que a cantora enfrentou e superou sua doença.

D: Suas músicas costumam refletir os seus sentimentos, um exemplo é Vitrine, que aborda sobre depressão. Percebe-se que você não tem medo e nem problemas em comentar sobre a sua experiência com o Borderline. Como você percebe a importância de falar sobre saúde mental?

M: As pessoas tem muito medo de falar de depressão, é um tabu. A minha mensagem é não ter medo, ser você, se aceitar do jeito que você é que o mundo te aceita também, e é muito mais fácil ser feliz quando você se ama. Ninguém está sozinho, as pessoas não entendem o que estão sentindo, e quando você escreve sobre isso, ela se identifica e é isso que eu quero dizer “vamos se unir, você não está sozinho”. É exatamente por isso que acontece tanto suicídio, as pessoas que tem depressão tem medo de falar e acabam morrendo por dentro. Na maioria dos casos, a depressão pede ajuda, ela dá sinal. Acredito que as pessoas não precisam sofrer sozinhas, você tem que se aceitar, tem que conversar com a depressão, conversar com a tristeza. Entender onde está doendo, porque se você não olha para o problema, você não encontra a solução, então você sempre tem que olhar, analisar, entender, conversar para poder encontrar o que fazer sobre isso. Não tenho medo de falar sobre depressão, é importante tratar desse tema, acho que grande parte das pessoas do Brasil sofre com isso, algumas não sabem, outras sabem e tem medo. Só quero mostrar que não é preciso ter medo, pode falar, tem que dizer quando está doendo, tem que chorar quando quiser chorar, seja feliz sendo você, se você quer chorar quando se sente triste, chore, isso é bom para a alma, vai te fazer bem sentir, mas não significa que você tem que sofrer com isso sozinho. O amor é a grande cura da civilização, então um abraço, um beijo, ajuda, você não precisa falar nada, só sente com a pessoa que é depressiva, converse com ela, pegue na mão dela, dê um beijo no rosto, só isso já é carinho, isso é amor, isso é a cura.

D: Como está sendo a recepção do álbum e quais são as expectativas com ele?

M: Tenho recebido muitas mensagens de amigos. Tenho encontrado uma recepção interessante, a maioria das mulheres que escutaram o CD gostam da música Cobra Cascavel e a maioria dos homens gostam de Laranja. E é muito interessante ver esse lado, é claro que todo mundo gosta de Baby, mas tirando ela, estou vendo isso: homens estão muito românticos e as mulheres são mais poderosas, e é interessante ver isso. Como vamos lançar mais um single, Vitrine, que o clipe chega em março, vou trabalhar nesse álbum mais um pouco com essa faixa. Como é um disco que escrevi aos 24 anos, fui me modificando com o tempo, é um álbum que vejo como a minha entrada no mundo da música. Já estou ansiosa, estou pensando no segundo disco, já quero uma coisa mais moderna, mais pop porque as pessoas ficam querendo me encaixar no rock, no pop, no alternativo, ou sou isso ou aquilo, então quero me firmar um pouquinho mais no pop.

D: Quais são as suas inspirações musicais? 

M: Eu morro de medo dessa questão (risos), acho que tenho mil inspirações musicais. Comecei escutando Linkin Park, Evanescence, sempre gostei do rock, daquele rock instrumental. Grande parte das minhas influências também vieram do que a minha família colocava no carro para escutar, meu pai ouvia muito Bon Jovi e Celine Dion, então não posso deixar de colocar eles como minhas influências. Mas também escutei Britney Spears, cresci nessa fase do pop. Porém, hoje quem eu busco como inspiração é com certeza essa galera do rock do passado, porém também curto muito a Sia, pelo jeito dela falar das coisas, gosto da voz da Amy Winehouse, gosto do jeito verdadeiro e alternativo da Halsey, gosto das palavras ácidas da Lorde. São essas as influências mesmo, tenho muito esse lado do pop internacional, do rock mais clássico e até do funk, escuto desde Adele até Anitta. Não consigo definir, eu gosto de tudo. É grande a lista de influências, curto também Lana Del Rey. Gosto das divas, sempre preferi as cantoras do que as bandas, sempre preferi mulheres cantando do que homens.

D: Quais são os seus sonhos como artista?

M: Com certeza o mercado internacional no pop rock, no pop. Acho que todo mundo que é músico sonha com isso, conseguir esse mercado. Meu sonho é viver, ser feliz fazendo o que faço, compor, cantar. Fazer música e ver as minhas músicas sendo cantadas pelas pessoas, adoro ver as pessoas cantando as minhas músicas. E um grande sonho seria uma parceria com a P!nk porque ela tem esse lado pop rock, e de todas as pessoas do mundo, de artista internacionais, eu me identifico mais com ela. Creio que eu e ela seríamos uma parceria interessante.

D: O que podemos esperar de Manaia neste ano? Quais serão os seus próximos passos?

M: Terá Vitrine que vai ser single, vai ter clipe. A gente também está querendo trabalhar em alguma coisa acústica, mas com certeza o segundo álbum já irá sair neste ano, com músicas novas, com uma pegada mais pop, menos indefinido. As pessoas querem saber quem eu sou, definir o meu gênero musical, então vou vir um pouquinho pop para entenderem melhor, mas não vou deixar de ser alternativa.

D: Para finalizar, diga algo para as pessoas que estão conhecendo o seu trabalho só agora.

M: Se não me escutam ainda, vão me conhecer. Quero dizer que arte não se compara, não é preciso olhar para o meu som e tentar definir ele, é só sentir, só escutar, é viver, é sofrer. E a minha frase que é “deixar a luz do sol fazer barulho”.

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Reportagem: Victória Lopes

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